
' Me mostre um caminho agora, um jeito de estar sem você...
Já escrevi tantas vezes sobre tantas coisas - carinho, amizade, liberdade, aprendizado, amores - passageiros, loucos, encantadores.
Só não escrevi ainda sobre tudo isso.
Foi uma escolha do destino talvez, mas de almas com toda certeza. Mais do que te escolher, a senhora me escolheu, ou melhor, me acolheu - talvez mais do que aos seus próprios filhos.
A senhora me deu amor, carinho, atenção, me ensinou a ficar de pé sozinha e a levantar todas as vezes que eu caia, mas além de tudo isso me deu a vida - a verdadeira vida, com todos os seus sentidos e razões de ser.
Amor incondicional.
Brigamos tantas vezes e mesmo assim sempre íamos dormir agarradas todas as noites, e a senhora sempre me dizia que eu te sufocava, e eu insistia em retrucar que aquele perto parecia não ser o suficiente, e queria sempre te apertar mais e mais e mais... Anos depois eu ainda voltava para sua cama quando tinha pesadelos e você sempre me dizia: "Filha, isso é falta de oração!" .
Talvez fosse mesmo.
Quantas vezes a senhora encobriu minhas bagunças? Não lembro, perdi as contas. Outras tantas realizava todas as minhas vontades (aquelas que minha mãe te fazia jurar que não iria ceder), brigava por mim, tomava minhas dores - me defendia mais do que a si mesma.
Hoje completa o primeiro mês desde a última vez que nos vimos, e se eu fechar os olhos posso sentir novamente como suas mãos estavam frias naquele dia e lembrar como era forte a dor que eu sentia. A senhora foi mais do que minha avó - foi minha mãe, meu pai,meu grande amor. E tantas foram as vezes que eu pensava que te ter ao meu lado me fazia sentir viva - amar e ser amada da forma mais bela que poderia existir.
E todas as noites eu rezo para ser um daqueles pesadelos que eu sempre tinha, e que ao acordar eu possa ir para seu quarto, pular na sua cama e apertar suas bochechas e te dizer mais uma vez: neguinha, eu te amo mais do que a mim.
Acho que eu ainda não acordei, mas eu continuo rezando todos os dias como a senhora me pedia, e quem sabe seja só mais um daqueles pesadelos infantis, não é?!
Com carinho, ao meu grande amor.







